Melitina: o veneno de abelha pode inspirar uma nova geração de tratamentos para doenças oculares inflamatórias?

O desenvolvimento de novos tratamentos para doenças oculares tem encontrado na natureza uma importante fonte de moléculas bioativas. Entre elas, destaca-se a melitina, principal peptídeo presente no veneno da abelha Apis mellifera. Embora seja conhecida por provocar dor e inflamação durante a picada da abelha, pesquisas recentes demonstram que, quando utilizada em concentrações cuidadosamente controladas, essa molécula pode apresentar propriedades terapêuticas bastante promissoras.

Uma molécula conhecida, mas ainda pouco explorada na oftalmologia

A melitina representa aproximadamente 50 a 60% do peso seco do veneno da abelha e já vinha sendo estudada em diversas áreas da medicina devido às suas propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, antivirais e antitumorais. Entretanto, sua aplicação em doenças oculares ainda era pouco conhecida, principalmente porque existiam dúvidas sobre sua segurança quando administrada diretamente no olho.

Esse desafio é particularmente relevante no tratamento da uveíte não infecciosa. A doença corresponde a um grupo de inflamações intraoculares capazes de comprometer permanentemente a visão e figura entre as principais causas de cegueira evitável no mundo. Embora os corticosteroides sejam considerados o tratamento padrão, seu uso prolongado pode provocar efeitos adversos importantes, como catarata, glaucoma e aumento da pressão intraocular, tornando necessária a busca por alternativas terapêuticas mais seguras.

Primeiro passo: confirmar que a melitina é segura

Antes de investigar qualquer benefício terapêutico, os pesquisadores precisaram responder uma questão essencial: a melitina pode ser administrada no interior do olho sem causar danos?

Para isso, foram realizados diversos experimentos envolvendo culturas de células da retina, modelos alternativos para avaliação de irritação ocular e estudos em animais. Os resultados mostraram que, nas concentrações avaliadas, a melitina não reduziu significativamente a viabilidade das células da retina, não provocou irritação ocular, não alterou a pressão intraocular e também não causou alterações estruturais ou funcionais na retina dos animais tratados. As análises histológicas e os exames de eletrorretinografia confirmaram que a função retiniana permaneceu preservada após a administração intravítrea da molécula.

Além disso, os pesquisadores observaram que a melitina foi capaz de penetrar nas diferentes camadas da retina após a aplicação intravítrea, alcançando justamente as regiões mais afetadas durante os processos inflamatórios. Esse resultado reforça seu potencial para atuar diretamente no tecido alvo da doença.

Muito além da segurança: um potencial efeito terapêutico

Depois de confirmar que a molécula apresentava um perfil de segurança adequado, o estudo passou a investigar seus possíveis efeitos terapêuticos.

Em experimentos realizados com células do epitélio pigmentar da retina estimuladas a desenvolver um processo inflamatório, a melitina reduziu significativamente a produção de importantes mediadores da inflamação, como as citocinas IL-6 e IL-8, além de diminuir a produção de óxido nítrico. Essas moléculas participam da resposta inflamatória ocular e estão associadas à progressão de diversas doenças da retina.

Os pesquisadores também avaliaram o efeito da melitina sobre a formação de novos vasos sanguíneos, um processo conhecido como angiogênese e frequentemente associado a doenças oculares graves. Nos modelos experimentais utilizados, a melitina reduziu significativamente a formação desses vasos, apresentando desempenho semelhante ao do bevacizumabe, medicamento amplamente utilizado na prática clínica para o tratamento de doenças neovasculares da retina.

Resultados promissores no tratamento da uveíte experimental

O principal objetivo do estudo foi avaliar se a melitina seria capaz de controlar a inflamação ocular em um modelo experimental de uveíte.

Os resultados foram bastante animadores. Os animais tratados apresentaram redução dos sinais clínicos de inflamação, melhora da organização das estruturas da retina e recuperação da função retiniana quando comparados aos animais que não receberam tratamento. Além disso, foi observada uma diminuição importante da infiltração de células inflamatórias e dos níveis de diversas citocinas pró-inflamatórias, incluindo IL-1β, IL-6, TNF-α e CXCL-1. Em várias análises, os efeitos obtidos com as maiores concentrações de melitina foram semelhantes aos observados com a dexametasona, um dos corticosteroides mais utilizados no tratamento da uveíte.

O que esses resultados representam?

Embora os resultados sejam bastante promissores, é importante destacar que eles foram obtidos em modelos celulares e animais. Portanto, a melitina ainda não pode ser considerada um tratamento disponível para pacientes.

Mesmo assim, o estudo representa um avanço importante para a pesquisa em oftalmologia. Além de demonstrar que a molécula pode ser administrada com segurança em baixas concentrações, os resultados indicam que ela reúne propriedades anti-inflamatórias e antiangiogênicas capazes de motivar novas investigações. Futuramente, derivados da melitina ou sistemas de liberação controlada poderão ampliar ainda mais seu potencial terapêutico1

Sobre a pesquisa

Esta reportagem foi elaborada com base no artigo científico “Low-dose melittin is safe for intravitreal administration and ameliorates inflammation in an experimental model of uveitis”, publicado no periódico científico Current Research in Pharmacology and Drug Discovery.

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Ezequiel Dias (FUNED), reunindo especialistas das áreas de farmacologia, oftalmologia, química, imunologia e desenvolvimento de terapias oculares.

A pesquisa teve como objetivo investigar a segurança e o potencial terapêutico da melitina, principal peptídeo presente no veneno da abelha Apis mellifera, para o tratamento de doenças oculares inflamatórias, com foco na uveíte não infecciosa. Para isso, os pesquisadores avaliaram os efeitos da melitina em modelos celulares e animais, demonstrando que, em baixas concentrações, a molécula apresentou perfil de segurança favorável para administração intravítrea, reduziu mediadores inflamatórios, preservou a função retiniana e atenuou a progressão da inflamação ocular.

Referência: Castro, Brenda Fernanda Moreira et al. Low-dose melittin is safe for intravitreal administration and ameliorates inflammation in an experimental model of uveitis. Current Research in Pharmacology and Drug Discovery, v. 3, 100107, 2022.

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