Nas últimas décadas, o tratamento das doenças do segmento posterior do olho avançou significativamente, impulsionado sobretudo pelo desenvolvimento de sistemas de liberação prolongada de fármacos, que reduzem a necessidade de aplicações frequentes e aumentam a eficácia terapêutica.
No Brasil, o CPMO tem desempenhado papel central nesse progresso, conduzindo pesquisas inovadoras e desenvolvendo novas tecnologias e dispositivos para uso intraocular. Este texto reúne os principais marcos dessa trajetória, que reflete mais de duas décadas de contribuição científica do grupo.
A necessidade por implantes intravítros: desafios do segmento posterior
A região posterior do olho é protegida por barreiras fisiológicas que restringem significativamente a penetração e a biodisponibilidade de medicamentos administrados por vias convencionais, como colírios ou formulações sistêmicas. Dessa forma, para que o fármaco atinja concentrações terapêuticas adequadas na retina e na coroide, a via intravítrea frequentemente se torna necessária.
Embora essa abordagem seja eficaz, seu uso repetido está associado a maior desconforto para o paciente, risco acumulado de complicações, custos elevados e dependência constante de procedimentos ambulatoriais.
Nesse contexto, a concepção de implantes biodegradáveis capazes de promover a liberação sustentada e controlada de fármacos surge como uma estratégia essencial para reduzir a frequência das intervenções, otimizar a eficácia terapêutica e melhorar a experiência clínica do paciente.
As Origens do CPMO: Quando a Pesquisa de Implantes Começou a Ganhar Força
O início da atuação do CPMO nesse campo remonta ao começo dos anos 2000, período marcado pela introdução dos primeiros agentes anti-VEGF, como o Macugen®, e, posteriormente, pelo uso off-label do Avastin®, que transformaram o manejo de doenças neovasculares da retina.
Paralelamente, o impacto clínico do implante Vitrasert® — aprovado em 1996 e capaz de liberar ganciclovir por períodos prolongados — evidenciou o potencial dos sistemas de liberação intraocular para contornar as barreiras anatômicas do segmento posterior e manter níveis terapêuticos estáveis por longos intervalos.
Esses marcos demonstraram a viabilidade de estratégias de liberação sustentada e motivaram o CPMO a explorar o desenvolvimento de implantes biodegradáveis capazes de veicular diferentes moléculas de forma eficiente até o interior do olho.
DDS-25G: O Primeiro Implante Intravítreo Brasileiro
Um dos avanços mais relevantes para a oftalmologia brasileira foi o desenvolvimento do DDS-25G, um implante biodegradável aplicado por agulha 25G e inicialmente destinado à liberação de dexametasona.
Além de ser o primeiro implante intravítreo concebido integralmente no país, o dispositivo resultou em uma patente nacional e alcançou a Fase I de ensaio clínico, demonstrando segurança, biocompatibilidade e aplicabilidade clínica — um feito inédito para um dispositivo ocular brasileiro.
A partir do desenvolvimento do DDS-25G, o CPMO expandiu suas pesquisas para diversas classes terapêuticas, incorporando imunossupressores, antitumorais, antiangiogênicos naturais, antibióticos e até acetazolamida em implantes biodegradáveis destinados a diferentes doenças oculares.
Esses avanços incluem feitos inéditos, como o primeiro implante de liberação lenta de clindamicina para toxoplasmose ocular e o primeiro uso clínico de acetazolamida em forma de implante para edema macular cistoide. Essa diversificação evidencia a capacidade do grupo de adaptar a plataforma a múltiplas necessidades clínicas, oferecendo soluções inovadoras para condições frequentemente negligenciadas.
A Revolução dos Materiais: De PLGA a Nanofibras Funcionais
Diante da demanda por sistemas capazes de transportar moléculas maiores ou particularmente sensíveis, o CPMO ampliou suas investigações para novos materiais biodegradáveis, como PCL, poliuretanos e nanofibras eletrofiadas. Esses materiais oferecem vantagens como liberação ultrapro-longada, elevada biocompatibilidade, modularidade estrutural e maior proteção a proteínas e anticorpos, permitindo inclusive a combinação de múltiplos fármacos em um único dispositivo.
Essa evolução culminou no desenvolvimento de um implante híbrido composto por um núcleo de PLGA contendo dexametasona revestido por nanofibras carregadas com bevacizumabe, que demonstrou segurança intravítrea, redução de neovascularização e potencial significativo para o tratamento da DMRI e outras terapias combinadas.
Uma História que Inspira o Futuro da Terapia Ocular
Ao longo de 25 anos, o CPMO consolidou-se como uma das principais referências brasileiras em inovação aplicada à saúde ocular, acumulando 129 publicações científicas, quatro patentes licenciadas e o desenvolvimento de tecnologias pioneiras que impactaram diretamente o manejo de uveítes, edema macular, tumores intraoculares e doenças neovasculares.
Essa produção robusta e contínua posiciona o grupo no cenário internacional da pesquisa oftálmica translacional.
Nossa trajetória, que vai do primeiro implante intravítreo desenvolvido no país às plataformas híbridas de nanofibras capazes de liberar múltiplos fármacos, demonstra a construção de uma linha de pesquisa madura, consistente e alinhada às demandas reais da prática clínica.
Mais do que os resultados científicos, esse percurso reflete o compromisso do CPMO com a formação de pesquisadores, a inovação orientada ao paciente e o desenvolvimento de soluções acessíveis e tecnicamente avançadas para o cuidado ocular moderno.
